Hipócrates se considerava descendente de Asclépio (FERRY, 2021), pois a arte da cura era transmitida de pai para filho, e Asclépio era considerado o progenitor dos médicos gregos, chamados de “Asclepiadai” (filhos de Asclépio) (KERÉNYI, 2015, p. 22). Como outros mitos gregos, a história de Asclépio apresenta mais de uma versão; assim, neste artigo adota-se a de Ferry (2021), bem como os estudos de Brandão (1987), Kerényi (2015), Panagiotidou (2022) e Steger (2018). Quanto à perspectiva de Asclépio, como mito da medicina contemporânea, parte-se das formulações teóricas de Lanfranchi (2018).
Asclépio era filho de Apolo, um deus, e de Coronis, uma mortal. A sua mãe, Coronis, preferiu casar-se com um mortal, Ischis, e esse casamento foi considerado um acinte por Apolo. A descoberta do casamento é narrada por alguns como decorrente dos poderes adivinhatórios de Apolo e por outros, como Apolodoro, como uma notícia levada pela gralha, enviada por Apolo para vigiar Coronis. Cego de ciúmes, Apolo torna a gralha em um pássaro preto, o corvo. Além de castigar a gralha, Apolo e sua irmã gêmea, Ártemis, lançam suas flechas contra Coronis e Ischis, lembrando que ambos são notórios por serem hábeis arqueiros. Quando Coronis estava na fogueira, sendo cremada, Apolo se recordou de que ela estava grávida de seu filho, que era arrancado do ventre da mãe. Em algumas versões, é o próprio Apolo que o retira; em outras, é Hermes. Apolo confia seu filho ao maior educador de todos os tempos, o centauro Quíron, filho de Cronos, que havia sido encarregado da educação de Aquiles e de Jasão. Diziam que Quíron havia ensinado medicina a Apolo. Asclépio nasceu com habilidades especiais e inteligência e decidiu estudar medicina porque queria ajudar as pessoas e, ao longo do seu percurso, descobriu vários fármacos e curou pessoas mesmo quando estavam desenganadas (PANAGIOTIDOU, 2022).
O nascimento de Asclépio representa a vitória da vida sobre a morte, pois foi arrancado enquanto sua mãe falecia, queimada. Assim, Asclépio se tornará um cirurgião inigualável e um salvador de vidas. Mas, além dessas habilidades, a Deusa Atena lhe deu o sangue da górgona Medusa para ressuscitar os mortos (STEGER, 2018), tornando-o “senhor da vida e da morte” (FERRY, 2021, p. 177). Diante do poder de Asclépio, Zeus entende que a imortalidade humana causará caos e decide, em consequência, fulminar Asclépio. Segundo outros relatos, Hades reclamou a Zeus de que o número de mortes havia diminuído em razão das curas de Asclépio (PANAGIOTIDOU, 2022). A ação de Zeus contra Asclépio provoca a fúria de Apolo, pois matou seu querido filho, o que dá início a uma série de atos de vingança, como a morte dos filhos dos Ciclopes, que haviam dado a Zeus o raio. Vigando-se, Zeus prende Apolo no Tártaro junto com os Titãs. Mas Leto, a mãe de Apolo, pede clemência a Zeus, que transmuta sua pena em um ano de escravidão. Quanto a Asclépio, em razão de suas contribuições como médico, Zeus decide imortalizá-lo, transformando-o em uma constelação, a do “Serpentário”, o que significa “aquele que leva a serpente”. Em seu fim, Asclépio é divinizado, sendo considerado, ao longo dos anos, o fundador da medicina e o deus dos médicos, cuja imagem está conectada com a serpente, que é segurada por ele, e seu cetro, também denominado “caduceu” (FERRY, 2021, p. 178).
O culto a Asclépio resultou na criação de santuários de cura, sendo o seu culto de cura o cerne da medicina religiosa ocidental, bem como contribuiu para a provisão de cuidados em saúde na Antiguidade. Seus cultos proviam esperança aos pacientes que iam aos santuários em busca de recuperá-la (STEGER, 2018). O culto a Asclépio se espalhou de Epidaurus para várias partes do mundo mediterrâneo, como Coríntios e Co, inclusive em terras celtas e germânicas, tendo o seu apogeu no séc. IV a.C., época em que se contabilizam cerca de 200 locais de culto a Asclépio (PANAGIOTIDOU, 2022).
Asclépio se tornou um mortal que foi divinizado por suas habilidades únicas e extraordinárias realizações, enquanto “grande médico”, como era cognominado (BRANDÃO,1987, p. 52). Assim, Asclépio, o deus da medicina, expressa a habilidade médica para curar doenças, sendo sua autoridade reconhecida pelos médicos mortais (STEGER, 2018). Nesse sentido, tornou-se o ancestral físico e espiritual dos médicos, sendo “o médico divino que une em si a luz e a ajuda”, isto é, “o ancestral e o arquétipo de médicos mortais” (KERÉNYI, 2015). Asclépio, enquanto imagem arquetípica, endossa a “autoimagem médica”, conceito central da cultura médica (THOMAS, 2014, p.406), de que é detentor de qualidades, como autossacrifício, beneficência, competência e tenacidade (LANFRANCHI, 2018).
Mas o mito de Asclépio não traz apenas a mensagem de que ser médico é salvar vidas ou curar, pois ele também “brincou de ser deus” ao ressuscitar os mortos, o que revela sua húbris (THOMAS, 2014), pela qual foi punido por Zeus. Assim, o mito de Asclépio representa a luz e a sombra da atividade médica, na medida em que desafia as leis naturais da mortalidade e os deuses (FERRY, 2021), bem como não aceita as fronteiras entre a vida e a morte (LANFRANCHI, 2018). Essa inflação do médico ou senso de onipotência (LANFRANCHI, 2018) é subjacente à ideia de que os médicos não falham, pois se não são humanos, logo, não passíveis de cometerem erros, sendo infalíveis. Quanto à inflação do ego, assinala-se que ela ocorre quando o ego está maior, mais forte e com maior quantidade de energia psíquica do que a consciência, o que impede o ego e a consciência de atuarem de forma orientada à realidade. Assim, ao se identificar o ego com o transpessoal modulado pelos valores coletivos, o sujeito perde contato com suas próprias limitações e torna-se um não humano (NEUMANN, 1990). Para Neumann (1990), a inflação do ego, sua autoidentificação com um conteúdo transpessoal, constitui o próprio significado de húbris, em que o ser humano se iguala aos deuses.
A inflação do ego, no caso dos médicos, é denominada por Lanfranchi (2018, p. 26) “complexo de Asclépio”, que deriva da identificação com superpoderes de vida e morte e da consequente inflação do ego do médico. Desse modo, o complexo de Asclépio é constelado, segundo Lanfranchi (2018), pela inabilidade dos médicos de renunciarem à ideia de salvar o paciente, mesmo às custas do próprio bem-estar do paciente, como ocorre na distanásia. Assim, o complexo de Asclépio também se conecta à ideia de infalibilidade médica, que constitui uma sombra da ideia de médico como um ser divino, social e mitologicamente construída ao longo dos anos.
Shelley (2018, p. 197), ao abordar a infalibilidade médica, apresenta a concepção de “síndrome de húbris”, da qual a própria infalibilidade médica decorre. Desse modo, em razão da sua húbris, o médico acredita na própria perfeição e na exatidão do conhecimento médico. Como medida para superar a húbris na medicina, ou o “complexo de Asclépio”, Shelley (2018, p. 197) assenta que a formação médica deve abordar, além da falibilidade humana, o estudo dos fatores que contribuem para o erro nos cuidados em saúde, bem como enfocar-se na superação da “húbris cognitiva” e no desenvolvimento de uma “humildade cognitiva”. Ainda menciona três tipos de falibilismo: a falibilidade epistemológica, a psicológica e a ética, que não serão objeto deste artigo. De qualquer modo, é importante ressaltar o conceito de “falibilidade necessária”, que remete à própria natureza do corpo humano (SHELLEY, 2018, p. 198).
No campo da segurança do paciente, o seu surgimento foi impulsionado pelo erro humano nos cuidados de saúde. Assim, é no contexto do reconhecimento da falibilidade que a profissão médica provavelmente encontrará sua maior força e maior oportunidade de transformação (NARAYAN; KAPLAN; ADASHI, 2024). Nesse sentido, apenas mediante a integração da sombra do Mito de Asclépio, isto é, sua arrogância e onipotência, pode-se admitir que os médicos são seres humanos e que a medicina possui limitações e incertezas; logo, os médicos cometem erros. Segundo Pinheiro (2019), tomar consciência da sombra implica reconhecer o lado obscuro da personalidade, o que constitui o fundamento do autoconhecimento. Ampliando o contexto do Mito de Asclépio, é necessário que os estudantes de medicina sejam ensinados sobre os limites e as incertezas da medicina, bem como sobre a condição humana de falibilidade, para que possam efetivamente conhecer a atividade médica, em toda a sua complexidade. Como esse ensinamento ainda não é uma realidade, comumente, quando ocorre um erro, a sombra é projetada (PINHEIRO, 2019) e o profissional envolvido diretamente no evento é punido, tornando-o um bode expiatório, temática que será objeto do próximo artigo neste blog.